Passados e Futuros

Postado em Contos em 15 Março, 2007 por Assessor de Imprensa

Lera para ela mais um de seus contos. Aquele que falava sobre a realidade. Aquele que o qualificava como burocrarazinho intitulado, benevolentemente, de conciliador.

O silêncio era mórbido. Já começava a pensar que não havia sido uma das suas melhores idéias. Enquanto ela relia o conto em voz baixa, ele pensava nas palavras que havia usado naquele conto. Definitivamente tinha que encontrar um sinônimo para “outrora”. Se um desajuizado algum dia tivesse a idéia de compilar seus contos em um só livro, esse livro com certeza se chamaria: Outrora.

Por que procurar outras palavras? “Outrora” dava um sentido lusitano. Meio erudito. Exatamente o que gostaria de passar
Ela havia terminado a leitura. Rira uma ou duas vezes enquanto se deliciava com aquele punhado de bobagens que ali estavam escritas.

- Gostei muito da forma como você me definiu. Disse ela rindo, como sempre.

- Que forma? Desculpe-me se tentei te definir com minhas palavras pobres. Nunca foi minha intenção;

- Não se desculpa. Nunca haviam me chamado de “garota doutro lado das montanhas. De depois das estradas sinuosas, de uma cidade incrustada num vale.” Achei bastante poético.

O silencio fez-se mórbido mais uma vez.
- Só gostou da minha “definição de você”? Perguntou ele com um ar pesado de descontentamento.

- Claro que não. Gostei muito da forma como você se lembrou de mim. Se este conto narra a verdade, você lembrou-se de mim muito rápido.

- Não me lembrei de você. Lembrei-me de nós!

- Por favor, não comece! Achei que tudo isso já estava superado. Você esta praticamente casado, e eu estou muito feliz com meu novo amor. Ainda por cima, este conto já tem quase 10 anos. Não é possível que este final ainda reflita alguma realidade.

- Me desculpe, faz anos que eu não leio este conto. O que diz na parte final?

- Beijaria…

- Sim, agora me lembro. Ainda me recordo daquela tarde como se fosse ontem. Você disse que está feliz. Está mais feliz com ele do que foi comigo?

- Por favor, não me faça essa pergunta.

- Você tem medo de buscar a resposta dentro de você mesma?

- Por favor. Pare!

- Qual é o seu problema? Tem medo de admitir que tivemos mais do que uma tarde de verão?

- Não sei bem o que tivemos, mas seja lá o que tenha sido não existe mais…
Foram algumas das palavras mais cortantes que já escutara até então. Poucas vezes experimentara essa sensação de estar totalmente entregue à loucura de outra.

Pela terceira vez fez-se silencio. Dessa vez o silencio era fúnebre.
- Vou embora – disse ela – tenho outras coisas pra fazer.

- Não minta. Quando você mente suas bochechas ficam coradas, e seus lábios ficam secos… Não combina com você!

- Pois bem. Vou me encontrar com meu namorado. Marcamos de almoçar hoje.

- De posse da verdade, posso te pedir que fique.

- Por favor, não me peça isso.

- Por que não?

- Porque há 10 anos eu lhe pedi que não fosse, mas você não me escutou. Então eu abençoei sua ida e rezei para que voltasse. O que de fato nunca aconteceu.

- Tente me entender! Éramos muito jovens. Você morava em outra cidade. Eu era irresponsável, inconseqüente…

- Sim, concordo. Agora somos muito velhos, responsáveis e conseqüentes. Não podemos nos dar ao luxo de nos jogarmos ao acaso mais uma vez.
Olhou aflita no relógio e viu que já passava de uma da tarde.

- Desculpe, não posso ficar mais. Realmente tenho que ir.

- Mas você volta?

- Não

- Por quê?

- Acho que já discutimos bastante sobre isso.

Ele não tinha mais argumentos. Ela levantou bruscamente da cama, vestiu-se, pegou sua bolsa e saiu pela porta da frente, deixando-o, para sempre.

O início do fim de tudo

Postado em Contos em 10 Março, 2007 por Assessor de Imprensa

Entregara-se. Acabara de recolocar aquela venda preta nos olhos que lhe obscurecia os pensamentos. Não sabia o que realmente queria. Mas dessa vez não teria como voltar atrás.

- Você tem certeza do que você está fazendo? – Perguntou ela, ainda duvidando que agora fosse verdade.

- Não! Não tenho certeza. Não sei se te quero, mas agora não posso remoer amores passados.

- Então porque faz isso comigo? Não tem medo de me magoar?

- Tenho.

Mal sabia ela que o maior medo que ele sentia era o medo de não se arrepender. Era mártir. Adorava sofrer. Fazia-lhe bem.

- Começos de relacionamentos não deveriam ser melancólicos – murmurou ela, com um ligeiro desespero.

- Tudo deve ser melancólico. “Melancolia é que dá ibope” – Disse ele cantarolando e esbanjando um ar jocoso, como quem não se importava. Importava-se. Tremia e suava frio.

- Pare com isso. Você sabe que eu falo sério. Sou louca por você.

- Eu também falo sério. Não quero te deixar. Nunca mais…

Mal percebia que suas mentiras iam crescendo e que, numa encruzilhada, tomara o caminho errado e a cada segundo, se afastava mais e mais da rota que, realmente, lhe pertencia.

- Você não a esqueceu. Eu sei. Mas eu vou fazer você esquecê-la.

Ele rira por dentro: Como tão tolo comentário ainda podia ser dito? Nascera na década de oitenta. Acreditava em sentimentos que as novelas ainda não reproduziam. Acreditava em amor condicional, em sexo casual, em noites perdidas, em aparências. Acreditava no poder da falsidade, na força das lágrimas e na eficiência da melancolia.

- No que você está pensando? – Perguntou ela com aspecto curioso.

- Nas coisas que eu acabei de deixar para trás.

- Ela?

- Sim.

- Algum dia você vai gostar de mim como você gostou dela?

- Não sei. É possível. “Pode ser que o barco vire… Também pode ser que não” – Ele riu mais uma vez.

- Não sei como você acha graça nisso. Não entendo como ela ainda pode te fazer bem.

- Ela não me faz bem. Ela me faz mal. Mas eu gosto mesmo assim. Desde o tempo em que estávamos juntos.

- Passado…

- Tudo bem. Já não quero mais discutir isso “o imperfeito não participa do (meu) passado”
Ela enfureceu-se. Ruborizou-se e com voz de fogo disse:

- Eu não suporto mais essas músicas. Fale-me alguma coisa sua, fale alguma coisa criada na sua cabeça. Diga-me algo que te pertença…

Ele a olhou no fundo dos olhos, como raras vezes fizera antes e disse:

- Faça por merecer…

Amores d’alám Mar

Postado em Contos em 19 Fevereiro, 2007 por Assessor de Imprensa

Acordou pensando ter escutado seu nome, mas era apenas o despertador que lhe chamava para mais um dia naquele lugar estranho. Londres era fria e não tinha sonhos durante a maior parte do ano. Sentia vontade de chorar, mas não fazia seu gênero. Era forte. Nem mesmo sua despedida havia sido melancólica. No fundo, sentia, realmente, vontade de chorar.

Aquele aperto no coração houvera lhe perturbado outrora, tanto que já, até mesmo, havia sido indicado a um cardiologista, mas este, teimava em atestar que era forte como touro.

Sentia falta de lugares d’além mar. Sentia falta daquele cheiro. Sentia fala dos seus sonhos. Sentia falta daqueles cabelos longos em sua cara todas as manhãs. Eram lindas aquelas manhãs. Aquela terra fria não era bem o que sonhara. Quando pequeno sonhava em morar em uma praia cheia de palmeiras verdejantes. Adorava clichês. Com o passar do tempo os sonhos foram se desgastando assim como a idade. Não agüentava mais ouvir falar em sonhos. Deixara tantos para trás que nem mais se importava se ainda tinha algum em sobejo nos confins da alma.

Não somente sonhos deixara para trás. Pessoas também. Morria de vontade de ligar e falar que sentia falta, mas era deveras orgulhoso. Saudade era uma palavra que não falava mais, no máximo dizia um singelo: miss you. Nem de longe tinha o mesmo impacto.

Ainda deitado, perdido em seus próprios pensares, não fazia questão de levantar, não fazia questão de acordar. Perdera toda a noite anterior olhando as estrelas e fazendo contas para descobrir quanto tempo levaria para nadar todo oceano de volta pra casa. Sim, era o que pensava, seria impossível. Quando chegasse, se chegasse, já estaria velho demais até mesmo para se reconhecer no espelho, mais ainda para reconhece-la. Depois de tanto tempo nem a voz adocicada, que no passado o conquistara, seria a mesma.

O telefone tocou. Nunca lhe chamavam. Podia ser ela. O que diria? O que conversariam? O telefone tocou mais uma vez. Como ela estaria? Estaria com alguém? Mais um toque. Estariam realmente felizes? … Fez-se um silencio mórbido. O pior que já escutara. O telefone não tocava mais. Caiu-lhe uma lágrima perdida. Outro dia começava. Será melhor assim – pensou. Levantando-se, não percebeu, mas deixara mais um sonho para trás, talvez, não só um sonho, mas deles, o último.

D’além mar…

Viagem de Volta (parte I)

Postado em Contos em 8 Janeiro, 2007 por Assessor de Imprensa

Os dias passavam e em todos eles descia aquele enorme morro escutando a mesma música japonesa e pensando nos beijos que ainda não havia dado. A música era um pouco animada e falava alguma coisa sobre flores. Não sabia, às vezes, simplesmente gostaria que falasse de flores e de beijos. Ficava sempre esperando que a música acabasse pra que começasse a ler. Lia poesias de um poeta chinfrim que lhe dera um livrinho com seus poemas igualmente chinfrins enquanto andava por uma praça no centro da cidade.

Durante a música japonesa que falava de flores e de beijos pensava naquela e na outra. Sentia-se culpado. Não poderia pensar nas outras. Tinha de pensar Nela! Escrevia contos vagabundos ao chegar em casa. Não sentia a menor vontade de continuar fazendo o que fizera anteriormente. Sentia a vontade única de ganhar na loteria e sair pra bem longe. A sorte de outrora não lhe acompanhava mais. Sentia-se largado ao léu, à deriva do destino, sem uma bússola norteadora de sentidos. Poucas vezes sentira tanto a falta de uma faca em seu peito como naquela hora. Talvez naquele dia em que desligou o telefone no meio da rua, ou… Não, nunca sentira tanta vontade de ter uma faca cravada bem fundo em seu peito.

Qual era a sua culpa? Havia simplesmente acabado. Ela era única que não percebia. Nada mais dava certo. Até mesmo o certo dava errado. Como um imã atraia outras e outras que eram sistematicamente ignoradas. O bem-querer era o único fio que os mantinham ligados. Fio tenro que não era suficiente para uni-los novamente.

Da janela daquele mesmo ônibus, onde escutava aquela mesma música japonesa que falava de flores e beijos, olhava para o alto e desejava com todas as suas forças que sua vida fosse guiada por um narrador onipotente e onipresente, mas também com outro atributo menos vigoroso, porem de maior utilidade no momento: piedade.

Procurava, durante toda descida, respostas para perguntas que nem sequer faziam sentido. Teimavam em cair algumas lágrimas agridoces, mas isso já era comum. Temia até mesmo ter algumas alcunhas correntes na boca dos outros usuários do ônibus. Para ser mais franco, não temia. Tinha uma ligeira vergonha, mas era só isso. Questionava inclusive a utilidade de seus questionamentos, mas quando chegava a esse ponto, já estava na hora de trocar de ônibus….

Mas por que “Doutor”?

Postado em Considerações em 2 Janeiro, 2007 por Assessor de Imprensa

Esses dois últimos textos que coloquei neste espaço destoam um pouco dos demais encontrados na casa de Dr Brown. O primeiro que falava do ano novo, ao que parece ele escreveu junto com alguém que lhe chamava de “filho”. Provável que seja sua mãe. Não sei por onde essa senhora anda. Procurei inúmeras vezes, mas os telefones encontrados não existem mais.

Já o segundo texto foi encontrado em uma outra pasta. Anexado a uma carta que recebeu de uma amiga. Junto com o texto e a carta, havia uma nota manuscrita que dizia: Sabia que esse texto a faria mudar de idéia. Então se entende que ela tinha uma carta para ele e estava relutante em mandar. Ao que parece ele a convenceu a entregá-lo a carta. É uma bela carta, que infelizmente não poderei publicá-la aqui.

Agora me passou pela cabeça: Não comentei porque chamo Matthews Brown de “Doutor”. Vasculhando seus pertences, encontrei uma carteira de advogado e um diploma de faculdade. Por isso o apelidei de Dr.Brown. Foi-se cedo. Futuro brilhante o aguardava. Nas letras e nas leis…

Para aqueles que não entregam cartas

Postado em Contos em 2 Janeiro, 2007 por Assessor de Imprensa

Tudo nessa vida tem um sentido, cada um de nós tem um papel a cumprir e uma carta a entregar.

Cartas não deveriam ser entregues. Cartas deveriam ser, simplesmente, anunciadas. Se eu um dia me metesse a escritor de cartas, nunca as entregaria. O que pensariam as pessoas ao saberem que tinham comigo uma carta que lhes pertencia, mas que nunca a receberia? Pensariam coisas fúteis, sérias, infantis, românticas, dramáticas. Efeito fantástico esse. Seria um feito incrível, ter minhas cartas reescritas todos os dias, por cabecinhas férteis: Qualquer momento de ócio serviria para mirabolar minhas tenras palavras em um pedacinho de papel.

Mas e ai? As palavras não seriam minhas, a escrita não seria minha, a carta não seria minha. Nunca me faria ouvir, nunca exporia meus reais sentimentos, jamais saberiam quem realmente sou. Meu momento de tristeza e lágrimas gotejadas no papel ficariam para sempre engavetados junto com uma carta nunca entregue. Minha vida ficaria a deriva, num mar de outras palavras que num dado instante fizeram sentido, mas que hoje não fazem nem tocam coisa alguma.

Cartas anacrônicas, essas sim, ficariam comigo sempre, para que crescesse, risse, chorasse, me envergonhasse ou me orgulhasse a cada releitura. Mesmo assim, algum dia me cansaria e me arrependeria de não ter-las entregue a um destinatário, que não eu.

Pense naquele olho brilhando ao receber um envelope direto, sem intermediários, sem carteiros, sem protocolos e burocracias. Pense naquela lágrima manchando a tinta da caneta. Não tem arte exposta em museu que se compare ao efeito de uma gota borrando o papel em uma carta. Não mesmo. Pense, no fim de tudo, em como seria bom ter todas as cartas prometidas bem debaixo do travesseiro…

Dialogando no ano que passou

Postado em Contos, Curtas Contados em 28 Dezembro, 2006 por Assessor de Imprensa

Há anos em que as primaveras têm mais flores.
Há anos em que os carnavais são mais alegres.
Há anos em que nossas vidas parecem ser mais vida
Há anos em que os invernos não são frios, que nossos corações não consigam acalenta-lo.
Há anos em que a vida, ávida por viver, se torna mais bela.
Nestes anos, temos certeza que encontramos alguém especial.
Alguém para confiar, brincar, rir, chorar e amar.
Cada ano que fica, deixa consigo as dores do passado.
Cada ano que chega, trás consigo as alegrias de um futuro.
Que o branco da paz e o vermelho do amor não estejam somente em nossas roupas.
Que todas as boas cores da vida estejam cada vez mais vivas em nossos corações.

E há anos, meu filho, que a primavera é mais fraca, que os carnavais são menos vibrantes, que nossas vidas parecem que perderam o viço, que o inverno é mais cortante.
Mas as flores teimam em nascer, os foliões colocam as máscaras mais belas, o fio da vida se enfeita e o frio é temperado com lindas ondas que do sol emanam.
Isso parece ter muitos nomes, e o primeiro que me vem ao coração é Deus. E, a partir dele, é que a coragem chega e tudo é pura beleza.
Feliz ano novo.

Passada

Postado em Considerações em 28 Dezembro, 2006 por Assessor de Imprensa

Está indo. Está passando a tristeza de ter perdido uma joia. Ja perdi outras joias antes, mas nenhuma que me marcasse tanto quanto aquela. Então. Diferente do ano passado, vou me afogar em lágrimas…
As vezes não queria que tivesse sido tão bom. Para que pudesse aceitar melhor o “tão ruim”

Tristeza mórbida…

Postado em Considerações em 9 Dezembro, 2006 por Assessor de Imprensa

Que pecado incomensurável cometi essa semana. A chuva que assolou minha cidade na última terça-feira foi algoz de um dos contos mais belos escritos por Mat Brown. Minha negligencia foi histórica. Deixei minha pasta onde guardo os contos esquecida no banco de uma praça aconchegante que tenho o costume de visitar para me sentar, e ler os contos que me foram deixados.

Ao começar a chuva, corri para não me molhar… Assim esquecendo minhas relíquias…
Por sorte a pasta é feita de couro e os papeis que estavam dentro quedaram intactos. Porém, o conto que eu lia no momento estava fora da pasta. O vento e a água o levaram. Nenhum de vocês tem a imaginação sórdida o suficiente para vislumbrar a dor que eu sinto em perder tal relíquia!

Como sou indigno de tais preciosidades… Antes outra pessoa as tivesse achado. Tristeza mórbida essa que me corrói por dentro…

Brigas e corações

Postado em Contos em 3 Dezembro, 2006 por Assessor de Imprensa

Já passava de duas da manhã, ou eram três? Ele se revirava na cama sem poder dormir. Os fogos de reveillon ainda ecoavam em sua cabeça. Mais constante que isso só a imagem dela, em sua melhor fotografia, marcada a ferro e fogo em sua cabeça. Os gritos daquela última briga ocupavam o espaço restante em sua cabeça. Discutiam por nada, ou por tudo. Qualquer coisa já era um motivo suficiente. Uma saia mais curta, ou dez minutos de atraso…

Será que daquela vez era definitivo? Pensara assim todas as outras vezes. Mas dessa vez era diferente. Aquele tom, ela nunca tinha usado. Nunca antes havia saído assim, sem dar notícias, nem voltado tão tarde.
Levanta, olha as horas, não as assimila, olha por olhar. Vai ao banheiro, lava o rosto, bebe água e se olha no espelho. Não reconhecia o próprio rosto. Sem ela, era irreconhecível até mesmo para seu eu lírico. Eu – pensou – palavra que há muito não usava. Preocupava-se mais com o Nós do que com o Eu. Seria esse o erro? Já ouvira falar, nessas telenovelas, que muitos casais se separavam falta de Nós, nunca por excesso.

Perdera totalmente a noção do tempo. A cronologia não lhe fazia mais sentido. Levava consigo mesmo, uma vida anacrônica. O anel na mão esquerda acusava cinco anos. Em sua mente, o limiar entre o amor e a cricunspecção afinava-se a cada pensamento com o nome dela.
Aquela porta maldita não se abria. Aqueles cabelos dourados teimavam em não chegar. Aquela boca doce teimava em não falar que sentia muito por tudo, e que lhe amava. A vida teimava em ser real.

Lera uma vez, também não se lembra onde, que as brigas afastam os corações. Teriam brigado tão constantemente que os corações não sabiam mais o caminho de volta? Quanta bobagem. Corações não andam, corações não pensam, corações não amam. Corações apenas batem.

Naquele mesmo momento, enquanto divagava sobre seu reflexo, o tempo, a porta e os corações, a porta se abre, seu semblante muda, e seu coração palpita mais forte. Era ela, naquele mesmo vestido branco, que corre até o banheiro e abraça forte.
Sinceramente, não fazia mais a menor diferença quem brigara primeiro, ou de que lado imperava a razão. O caminho de volta ela ainda conhecia. E se não o lembrasse, poderia seguir o mesmo brado cordial que a guiara todas as outras vezes.