Arquivo para Janeiro, 2007

Viagem de Volta (parte I)

Postado em Contos em 8 Janeiro, 2007 por Assessor de Imprensa

Os dias passavam e em todos eles descia aquele enorme morro escutando a mesma música japonesa e pensando nos beijos que ainda não havia dado. A música era um pouco animada e falava alguma coisa sobre flores. Não sabia, às vezes, simplesmente gostaria que falasse de flores e de beijos. Ficava sempre esperando que a música acabasse pra que começasse a ler. Lia poesias de um poeta chinfrim que lhe dera um livrinho com seus poemas igualmente chinfrins enquanto andava por uma praça no centro da cidade.

Durante a música japonesa que falava de flores e de beijos pensava naquela e na outra. Sentia-se culpado. Não poderia pensar nas outras. Tinha de pensar Nela! Escrevia contos vagabundos ao chegar em casa. Não sentia a menor vontade de continuar fazendo o que fizera anteriormente. Sentia a vontade única de ganhar na loteria e sair pra bem longe. A sorte de outrora não lhe acompanhava mais. Sentia-se largado ao léu, à deriva do destino, sem uma bússola norteadora de sentidos. Poucas vezes sentira tanto a falta de uma faca em seu peito como naquela hora. Talvez naquele dia em que desligou o telefone no meio da rua, ou… Não, nunca sentira tanta vontade de ter uma faca cravada bem fundo em seu peito.

Qual era a sua culpa? Havia simplesmente acabado. Ela era única que não percebia. Nada mais dava certo. Até mesmo o certo dava errado. Como um imã atraia outras e outras que eram sistematicamente ignoradas. O bem-querer era o único fio que os mantinham ligados. Fio tenro que não era suficiente para uni-los novamente.

Da janela daquele mesmo ônibus, onde escutava aquela mesma música japonesa que falava de flores e beijos, olhava para o alto e desejava com todas as suas forças que sua vida fosse guiada por um narrador onipotente e onipresente, mas também com outro atributo menos vigoroso, porem de maior utilidade no momento: piedade.

Procurava, durante toda descida, respostas para perguntas que nem sequer faziam sentido. Teimavam em cair algumas lágrimas agridoces, mas isso já era comum. Temia até mesmo ter algumas alcunhas correntes na boca dos outros usuários do ônibus. Para ser mais franco, não temia. Tinha uma ligeira vergonha, mas era só isso. Questionava inclusive a utilidade de seus questionamentos, mas quando chegava a esse ponto, já estava na hora de trocar de ônibus….

Mas por que “Doutor”?

Postado em Considerações em 2 Janeiro, 2007 por Assessor de Imprensa

Esses dois últimos textos que coloquei neste espaço destoam um pouco dos demais encontrados na casa de Dr Brown. O primeiro que falava do ano novo, ao que parece ele escreveu junto com alguém que lhe chamava de “filho”. Provável que seja sua mãe. Não sei por onde essa senhora anda. Procurei inúmeras vezes, mas os telefones encontrados não existem mais.

Já o segundo texto foi encontrado em uma outra pasta. Anexado a uma carta que recebeu de uma amiga. Junto com o texto e a carta, havia uma nota manuscrita que dizia: Sabia que esse texto a faria mudar de idéia. Então se entende que ela tinha uma carta para ele e estava relutante em mandar. Ao que parece ele a convenceu a entregá-lo a carta. É uma bela carta, que infelizmente não poderei publicá-la aqui.

Agora me passou pela cabeça: Não comentei porque chamo Matthews Brown de “Doutor”. Vasculhando seus pertences, encontrei uma carteira de advogado e um diploma de faculdade. Por isso o apelidei de Dr.Brown. Foi-se cedo. Futuro brilhante o aguardava. Nas letras e nas leis…

Para aqueles que não entregam cartas

Postado em Contos em 2 Janeiro, 2007 por Assessor de Imprensa

Tudo nessa vida tem um sentido, cada um de nós tem um papel a cumprir e uma carta a entregar.

Cartas não deveriam ser entregues. Cartas deveriam ser, simplesmente, anunciadas. Se eu um dia me metesse a escritor de cartas, nunca as entregaria. O que pensariam as pessoas ao saberem que tinham comigo uma carta que lhes pertencia, mas que nunca a receberia? Pensariam coisas fúteis, sérias, infantis, românticas, dramáticas. Efeito fantástico esse. Seria um feito incrível, ter minhas cartas reescritas todos os dias, por cabecinhas férteis: Qualquer momento de ócio serviria para mirabolar minhas tenras palavras em um pedacinho de papel.

Mas e ai? As palavras não seriam minhas, a escrita não seria minha, a carta não seria minha. Nunca me faria ouvir, nunca exporia meus reais sentimentos, jamais saberiam quem realmente sou. Meu momento de tristeza e lágrimas gotejadas no papel ficariam para sempre engavetados junto com uma carta nunca entregue. Minha vida ficaria a deriva, num mar de outras palavras que num dado instante fizeram sentido, mas que hoje não fazem nem tocam coisa alguma.

Cartas anacrônicas, essas sim, ficariam comigo sempre, para que crescesse, risse, chorasse, me envergonhasse ou me orgulhasse a cada releitura. Mesmo assim, algum dia me cansaria e me arrependeria de não ter-las entregue a um destinatário, que não eu.

Pense naquele olho brilhando ao receber um envelope direto, sem intermediários, sem carteiros, sem protocolos e burocracias. Pense naquela lágrima manchando a tinta da caneta. Não tem arte exposta em museu que se compare ao efeito de uma gota borrando o papel em uma carta. Não mesmo. Pense, no fim de tudo, em como seria bom ter todas as cartas prometidas bem debaixo do travesseiro…