Para aqueles que não entregam cartas
Tudo nessa vida tem um sentido, cada um de nós tem um papel a cumprir e uma carta a entregar.
Cartas não deveriam ser entregues. Cartas deveriam ser, simplesmente, anunciadas. Se eu um dia me metesse a escritor de cartas, nunca as entregaria. O que pensariam as pessoas ao saberem que tinham comigo uma carta que lhes pertencia, mas que nunca a receberia? Pensariam coisas fúteis, sérias, infantis, românticas, dramáticas. Efeito fantástico esse. Seria um feito incrível, ter minhas cartas reescritas todos os dias, por cabecinhas férteis: Qualquer momento de ócio serviria para mirabolar minhas tenras palavras em um pedacinho de papel.
Mas e ai? As palavras não seriam minhas, a escrita não seria minha, a carta não seria minha. Nunca me faria ouvir, nunca exporia meus reais sentimentos, jamais saberiam quem realmente sou. Meu momento de tristeza e lágrimas gotejadas no papel ficariam para sempre engavetados junto com uma carta nunca entregue. Minha vida ficaria a deriva, num mar de outras palavras que num dado instante fizeram sentido, mas que hoje não fazem nem tocam coisa alguma.
Cartas anacrônicas, essas sim, ficariam comigo sempre, para que crescesse, risse, chorasse, me envergonhasse ou me orgulhasse a cada releitura. Mesmo assim, algum dia me cansaria e me arrependeria de não ter-las entregue a um destinatário, que não eu.
Pense naquele olho brilhando ao receber um envelope direto, sem intermediários, sem carteiros, sem protocolos e burocracias. Pense naquela lágrima manchando a tinta da caneta. Não tem arte exposta em museu que se compare ao efeito de uma gota borrando o papel em uma carta. Não mesmo. Pense, no fim de tudo, em como seria bom ter todas as cartas prometidas bem debaixo do travesseiro…